post image

Imagine isto que vou descrever a seguir: dois homens, sem cabeças, vestindo paletós surrados idênticos, caminham num campo aberto. Encontram-se, tentam apertar as mãos e não conseguem alcançar um ao outro. A segunda imagem que proponho, são ambos, parados, realizando, enfim, a saudação. No primeiro momento, a figura de um duplo procura comunicar-se: estou aqui porque eu quero te tocar; afinal, a condição de dúplice traz consigo esforços infinitos por qualquer tipo de proximidade. Ao entabular o gesto definitivo, surge a bela e extenuante perspectiva de habitar dois mundos.

Em About Myself, o poeta sérvio, naturalizado norte-americano, Charles Simic, escreve: I’m the uncrowned king of insomniacs,/ Who still fights his ghosts with a sword,/A student of ceilings and closed doors,/Making bets two plus two is not always four./ (…) Descendant of village priests and blacksmiths:/ A grudging stage assistant of two/ Renowned and invisible master illusionists,/ One called God, the other Devil, assuming, of course,/ I’m the person I represent myself to be. Na poesia de Simic, encontra-se a representação de alguém que se dividiu: no decurso da guerra, seu pai foi preso pelos nazistas. Após passar, em Belgrado, uma infância na qual o marco zero de qualquer ação é a vigilância, o escritor chega aos Estados Unidos. No corpo que se dobra entre dois países, dois combates, duas línguas e inúmeras tempestades que somente cessam na escrita, também estão o escritor Ben Lerner e Adam Gordon, personagem de Estação Atocha, romance lançado no Brasil pela editora Rádio Londres.

Para além de um confuso bolsista acadêmico norte-americano, entorpecido por haxixe e comprimidos, Adam é a alegoria bem delineada — por uma fluída construção narrativa — do desânimo coletivo e da angústia como motor da subjetividade. Ben Lerner não traz  apenas o sujeito que se isola em sua imagem, desejos diversos e egocentrismo. Adam é, na verdade, um ponto de encontro, o desvirtuado equilíbrio entre a violência que sufoca e a letargia que afaga. Em Estação Atocha, estamos diante de um personagem apurado tanto no aspecto psicanalítico quanto no literário. Durante seu envolvimento amoroso com Isabel e Teresa, Adam está em permanente negação da figura paterna e materna. No ato da fala direcionada aos objetos de afeto, o poeta mata sua mãe e denigre a personalidade do pai, ambos vivos e, ao que parece, boa gente.

De acordo com Freud, “a negação é um modo de tomar conhecimento do reprimido”, espécie de “levantamento da repressão”. Dentro desse mecanismo, situam-se a função do juízo e duas decisões a serem feitas por ela, como explica o austríaco. Uma deve conferir ou recusar qualidades a determinada coisa; a outra, “deve admitir ou contestar se uma representação tem ou não existência na realidade”.  Ora, Adam gira a roleta do termo freudiano com desenvoltura ao longo de todo o romance. Não é só sua relação familiar que está na rotatória do contradito, a língua, lugar total de uma cultura, é constantemente posta a rodopio. O personagem caça, com afinco, o domínio completo do espanhol sem dar-se conta de que isso jamais será possível. Não importa quantas qualidades, durante o o julgamento psíquico, o jovem escritor entregue à Espanha, sua compreensão da língua estrangeira terá sempre um fundo falso de existência no real. A fuga recalcada de Adam torna-se, então, cansaço. No processo de seu esgotamento, o indivíduo censurado depara-se com o as modulações da realidade que o recebem: o marasmo invade a esfera do público. Aqui, é necessário que se conjure a lembrança de Arturo Belano e Ulisses Lima.

Não há como negar, Bolaño bruxuleia em todas as plataformas de Atocha. A linguagem desenvolvida por Ben Lerner aparece como algum tipo de progressão da escrita do chileno, na qual se torna tangível este trecho de Detetives Selvagens: “Tudo que começa como comédia acaba como monólogo cômico, mas já não rimos”. O humor de Adam traz à tona a risada taciturna de um fantasma que já não se mexe; a angústia diante da dissimulação provinda de tudo o que é ominoso. Duas sequências são relevantes quando lançamos esse olhar bolaniano ao discurso empreendido no romance: a visita do protagonista à casa de Rufina, tia de Isabel, e a narração — em formato de diálogo — de um banho de rio no México. “Agucei meu ouvido e consegui escutar vozes que me soaram alteradas; Isabel e Rufina estavam brigando em algum canto da casa, em algum quarto, de porta fechada. Fiquei fascinado com o fenômeno de ouvir vozes altas quando mal dava para ouvi-las, algo sobre a forma ou a harmonia delas ou a maneira como atravessavam as paredes”, nos conta Gordon. Assim como Bolaño, Lerner tem a capacidade de manusear a ampulheta das assombrações na literatura e suscitar, no leitor, a pergunta disparatada: Será que isso aconteceu mesmo ou é apenas invenção do narrador? Na leitura de Estação Atocha, esquece-se o efetivo, enrodilha-se o romance.

Na construção dos personagens, o escritor norte-americano subverte os infortúnios dos poetas que atravessaram o deserto de Sonora. O Arturo de Madrid é rico e propagador cultural; seus amigos, entre poetas, tradutores e artistas plásticos, são mimados e soam falsos em suas convicções sociais e políticas.  Na epígrafe de Detetives Selvagens, um diálogo do inglês Malcolm  Lowry:  “– O senhor quer a salvação do México? Quer que Cristo seja nosso rei? — Não”. Na Espanha de Lerner, também ninguém pede por resgate. Mesmo com a bomba, o caos no governo, os mortos: todos caminham em círculo, permanecem como o fantasma que não se movimenta mais, pois a sala diminui a cada minuto e o espaço para o susto vai tornando-se oculto por completo.

Em um de seus textos mais importantes, intitulado No hay que hacer nada luego, Enrique Vila-Matas disserta sobre o processo criativo de seu primeiro livro, posteriormente chamado de En un lugar solitario. Segundo o catalão, a obra foi elaborada num cenário que envolvia guerra, furtos e um manicômio. Para Vila-Matas, aquela escrita era exercício de leitura e estilo. Enquanto digitava, de maneira febril, as palavras no papel, descobria também o prazer do conhecimento literário. Na época, ele afirma que não concebia a ideia de ser lido, pois a literatura parecia uma confissão íntegra e particular de quem a executou. “Qualquer um vai saber quem sou”, pensava. Em Estação Atocha, Adam é o autor que muito teme a revelação do ato de escrever e seus desdobramentos, como a própria leitura. Porém, a questão que norteia o primeiro romance do norte-americano não é a morte ou distrato do escritor; apesar do pânico, o poeta segue na busca pelo contato final, estou aqui porque eu quero te tocar. Dessa forma, a concepção do literato em Atocha não está associada ao desparecimento: quem escreve, transforma-se em névoa, neblina vulto. Lerner nos mostra, em repetição, a cena absoluta da literatura, o último trem numa manhã de inverno: alguém que aperta feito um louco os botões da máquina de escrever posta num canto escuro do quartel, do manicômio; ou ainda, alguém como no poema de Simic, renomado e invisível ilusionista, um chamado Deus e outro Diabo.


Compartilhe