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Em março2016, o Fuga para oeste completou um ano de expedições e chegadas. Com o intuito de sublinhar este período de translação, convidei quatro escritores para o especial topografias invisíveis. Durante os últimos meses, acompanhamos uma troca de leituras entre Adelaide Ivánova, Marília Garcia, Priscilla Menezes e Victor Heringer. O trajeto teve como ponto zero a indicação, feita por eles, de qualquer livro – com tradução brasileira – nos quais os eixos temáticos estão voltados para o deslocamento (geografia, paisagem, mapas). A obra escolhida foi enviada, pelos correios, junto com breve comentário – relacionado à narrativa – do remetente. Depois de um intervalo de leitura, os escritores compartilham, no site, as suas impressões. A ideia consiste em observar, ao longo desse percurso, a expectativa, surpresas, contato com o desconhecido: sensações relativas ao processo de traçar topografias invisíveis, ação presente em todo tipo de viagem a qual nos propomos.

A seguir, o texto de Victor Heringer sobre Marca d’água, de Joseph Brodsky, escolhido por Marília Garcia. 

As virtudes da imobilidade
Um ensaio em torno de Marca d’água, Joseph Brodsky

 “as pessoas gostam mais de seu melodrama
do que de arquitetura”

Andei pensando sobre as virtudes da imobilidade.
Em que grau de imobilidade
eu ficaria plenamente satisfeito.

Não confinado a uma cama ou cadeira de rodas.
Não preso numa cela de sete metros quadrados.

Há poucos meses um médico achou que eu poderia estar muito doente
então fiz exames e descobri que não estou tão doente.
Estou só envelhecendo
e medianamente satisfeito.

Depois de perambular muito
tendo bordado SOLVITUR AMBULANDO
no forro de todas as minhas botas
talvez a satisfação esteja na imobilidade.

Não morando numa pensãozinha nos anos 1920.
Não crente na teologia da prosperidade.
Não tirando férias do escritório uma vez por ano.

Brodsky voltava todo ano a Veneza.
Kierkegaard dizia que viajar era bom para evitar o desespero.
Não sei o nome dos pássaros no jardim
mas eles bicam os mamões do mamoeiro.

Aqui eu escrevo de cara para as montanhas
onde vieram morar meus antepassados.
Nunca fui a Veneza nem eles.
Os antepassados têm essa vantagem sobre os vivos
eles nunca mais poderão viajar até Veneza.
Então não ficam inquietos
porque a estada lá, mesmo no inverno
é muito cara.

Brodsky era cardíaco.
Os turistas lhe davam nos nervos
porque a anatomia humana
é incompatível com o mármore.

Brodsky para mim sempre foi o poeta
que queria ser um armário.
Sou péssimo para lembrar poemas
palavras novas vão brotando dos entulhos
da minha memória como cogumelos.
Brodsky, se lhe dessem outra vida,
queria ser um armário no poema do Caffè Rafaella
mas ele não diz “armário”, diz “móvel”
“de pé, como um móvel no corredor”
na tradução do Carlos Leite para a edição da Cotovia.
Brodsky para mim sempre foi uma cristaleira.

Uma cristaleira de café vive mais do que um homem médio
sobretudo hoje, quando os cafés estão nas mãos dos hipsters
que guardam tudo o que lhes dá solidez de velhos
mas na falta de cristaleiras autenticamente velhas
compram similares contrafeitos.

A cristaleira de café vive plenamente satisfeita
de vez em quando ainda a mudam de lugar
para variar a paisagem.
Tiram o pó.

Meu cachorro foi tirar raio-x da pata traseira
e ficou tão quietinho
que o técnico deu R$100 de desconto.
Há certa virtude na imobilidade.
Ele não pode mais correr e vai ter que operar os ligamentos.

Joseph Brodsky morreu aos 55 anos de idade
de um ataque cardíaco em Nova York.
Há algo de incongruente em morrer em Nova York
então o enterraram numa ilha-cemitério, a San Michele.

Uma ilha-cemitério talvez seja o grau máximo de imobilidade.
Eu tenho 28 anos. Se meu pai morreu aos 42
e posso tomá-lo como padrão familiar
já passei da metade da minha vida
e quem me consola é Brodsky:
“aos vinte e oito anos todo mundo que tem alguma coisa na cabeça é um pouco decadente”.
Um jazigo em San Michele
deve custar um rim.

“Todo cambia”, cantava Violeta Parra
e eu amo Violeta há muitos anos.
E o amor é uma rua de mão única
por isso dá para amar poetas mortos
e cidades (Brodsky diz).

Quanto maior o grau de imobilidade
mais fácil ser amado
(pergunto eu).

Temos inveja das coisas mais imóveis que nós.
Por isso cantamos as maravilhas da bagunça
como recém-divorciados
como recém-nascidos.

Brodsky desceu aos porões de um palazzo
tendo antes conhecido outros subterrâneos
e lá encontrou o silêncio geológico
que o impediu de falar
a voz de um organismo descompassado.

Em que grau de imobilidade
eu ficaria plenamente satisfeito.

Talvez na praia.
Ali desdenhando de Bachelard
e de Brodsky e de quem mais vier
porque aqui, irmãozinho, é o Rio de Janeiro.

No dia 29 de maio deste ano escrevi no diário: “Foda-se a morte.”

 

Victor Heringer nasceu no Rio de Janeiro, em 1988. Prosador, poeta e ensaísta, tem uma coluna na revista Pessoa e publicou O amor dos homens avulsos (Companhia das Letras, 2016), Glória (7Letras, 2012, prêmio Jabuti), O escritor Victor Heringer (7Letras, 2015), automatógrafo (7Letras, 2011), entre outros.


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