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Em março2016, o Fuga para oeste completou um ano de expedições e chegadas. Com o intuito de sublinhar este período de translação, convidei quatro escritores para o especial topografias invisíveis. Durante os últimos meses, acompanhamos uma troca de leituras entre Adelaide Ivánova, Marília Garcia, Priscilla Menezes e Victor Heringer. O trajeto teve como ponto zero a indicação, feita por eles, de qualquer livro – com tradução brasileira – nos quais os eixos temáticos estão voltados para o deslocamento (geografia, paisagem, mapas). A obra escolhida foi enviada, pelos correios, junto com breve comentário – relacionado à narrativa – do remetente. Depois de um intervalo de leitura, os escritores compartilham, no site, as suas impressões. A ideia consiste em observar, ao longo desse percurso, a expectativa, surpresas, contato com o desconhecido: sensações relativas ao processo de traçar topografias invisíveis, ação presente em todo tipo de viagem a qual nos propomos.

A seguir, o texto de Priscilla Menezes sobre Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, de Maya Angelou, escolhido por Adelaide Ivánova. 

Maya,

Li teu livro, Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, quando viajava para o sul. Te li no trem para o subúrbio, em pé no ônibus fim de tarde, sobrevoando um litoral, dentro do táxi de madrugada. Te li enquanto atravessava de um país ao outro, experimentando a vertigem das muitas incompreensões e dos encontros improváveis. Te li nas noites insones sob pequenos focos de luz, mas te li especialmente do lado de fora sob o sol. Teu livro me quebrou justo quando eu mais precisava ser quebrada, o que quer dizer: justo quando eu precisava de mais coragem. A coragem é quando a gente finalmente desiste de tentar amansar o incontrolável. Te ler me ajudou a abrir mão do que tem forma de certeza e a me engajar no que chega como espanto. Tua escrita é bruta por sua simplicidade e quebra porque é radicalmente viva, trata da vida e de toda sua selvageria, daquilo que dificilmente admitimos: que não temos o gesto justo diante do que nos golpeia, que nada é equivalente, que tudo se trai. E mesmo assim a vida é coisa imensa e arrebatadora. Teu livro só é uma biografia quando pudermos traduzir biografia por escritura da vida (e não escrita sobre uma vida), escritura investida da potência incontornável do que vive.

Acho que teu livro é um pouco sobre isso, sobre a impossibilidade de se narrar e se compreender o vivo inteiramente. Sobre aquilo que pode ser dito e sobre o que resiste à linguagem. Mas sobretudo teu livro ensina que não se deve calar sob o peso daquilo que é indizível, justo o contrário: que o que pode ser dito é muito frágil e por isso mesmo pode ser transformador. Teu livro é sobre a tua existência de mulher, negra, norte-americana; mas especialmente sobre a tua existência singular, ou seja, sobre as tuas muitas travessias. Enquanto eu mesma atravessava por alguns lugares, te lia atravessar de um estado a outro, do Armazém ao mundo, da infância à vida adulta. Li também sobre o trauma do estupro que te marcou sem volta. A narrativa do teu trauma me atravessou sem piedade e fiquei alguns dias sem conseguir voltar a te ler. O trauma é aquilo que nos fura e a escrita é, por excelência, trabalho de errância pelas bordas desse vão. Teu trauma atualizou tudo aquilo que um dia me revelou a face abissal do mundo e tua escrita me lembrou do trabalho de invenção ao qual o abismo não cessa de chamar.

Agora te vejo em uma fotografia. É de 1970, portanto você tinha 43 anos, e estava andando em alguma praia de São Francisco. Algumas pedras te separam do mar. Você olha para cima e gesticula graciosamente, como se ensaiasse algum giro, alguma pirueta. Sorri enquanto encara algo ou alguém que não está no quadro. Usa calça, camiseta e tênis. Talvez fosse primavera ou outono, aposto que não era verão. Você parece estar em estado de graça, suspensa no tempo e no espaço, enquanto uma pequena onda lá atrás também se suspende um instante antes de quebrar. Maya, eu adoro ir à praia no inverno, ver o mar. No inverno ela fica mais desnuda e selvagem, o mar parece prometer mais coisas. Faz promessas que advêm do centro fumegante da terra. Imagino como seriam as promessas de um abismo de gelo, as promessas do mar aberto, as promessas de uma cratera de vulcão. Maya, acho que escrever é se colocar na mira de todas essas promessas violentas.

Teu livro me apresentou à tua vida fascinante, mas acima de tudo me apresentou à tua escrita viva. Tua escrita é mais que o relato de uma vida, é a invenção de uma possibilidade de existência. E nada mais radicalmente político do que garantir a multiplicidade dos modos de viver. Aqui no Brasil, atualmente, há uma grande onda conservadora que se efetua. Penso que escrituras como a tua se fazem urgentes sobretudo em momentos como esse. Não sei se a revolução advirá de uma ideologia, mas tenho convicção que toda afirmativa ética é revolucionária. Porque ética é garantir a possibilidade da invenção, ética é a multiplicidade, ética é a chance de inventar algo em torno da dimensão faltosa do mundo. Acho que o que há de mais radicalmente político no teu livro é isso: a denúncia, tão atual, da urgência de uma vida mais ética. A urgência da potência da invenção contra tudo aquilo que violenta e normatiza.

É preciso resistir às totalidades, à naturalização de uma ideia de neutralidade. É preciso ainda resistir às ideias de completude, de comunhão. Fazer a fissura resistir não para celebrar a insatisfação, mas para produzir uma vida mais comprometida com a transformação. Seu livro, me parece, é o ensaio em torno desse gesto fundamental: com tudo aquilo que nos mortifica, sustentar-se na invenção de uma obra e, ao mesmo, sustentar a invenção dessa obra. Como alguém que se apoia mutuamente naquilo que nunca cessa de criar, escrita e vida se amparando em um equilíbrio raro.

Gostaria de te abraçar demoradamente diante de algum mar e depois sair para dançar contigo numa noite quente de verão,
Priscilla M.

Priscilla Menezes é artista e pesquisadora. Trabalha com questões que fazem tangenciar vida e ficção a partir da noção de estética da existência. Desenvolve pesquisa plástica nas linguagens da fotografia, do desenho e do texto. É doutoranda em Artes visuais pela UERJ.


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