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1.

De acordo com Válery, em Poesia e pensamento abstrato, só compreendemos os outros e a nós mesmos “graças à velocidade de nossa passagem pelas palavras”.  Entre a palavra e o pensamento, então, devemos imaginar uma ponte sob a qual o homem “passe sem pesar”. Esse tipo de disparada é, talvez, o movimento mais precioso na poesia; deslocamento ligeiro que se faz possível através da linguagem como constante escolha-primeira do poema (lembro aqui, a fala de Mallarmé a Degas — “poemas são escritos com palavras, não com ideias”). Entre as preposições dos poetas franceses, podemos situar Seiva Veneno ou Fruto, da poeta Júlia de Carvalho Hansen. O título é um dos últimos lançamentos da Chão da Feira, editora independente que vem desenvolvendo uma distribuição importante de poesia contemporânea portuguesa e brasileira. Hansen produz em sua escrita esse tipo de preocupação com a palavra-veloz num ambiente selvagem, no qual a terra parece representar o elemento central de sua poética. Quando escolho o termo terra como definição, não especifico apenas a ideia óbvia-material de território, poeira, chão. Falo de uma terra-pessoa, do componente sem nome que liga o corpo ao solo, algo além do sensorial e próximo a essa seiva veneno que intitula o livro.  Hansen escreve:

Ou se dissipa no fogo
a matéria do teu corpo.
Aquilo em ti que te anima
o cão da tua respiração
a faca que são teus olhos
teus cabelos, teus corvos
aquilo que morde tua dentição
a vibra fibra músculo enfim

Existe um tipo de rigidez nesses versos que não se mostra exatamente por meio da estrutura do poema, mas parte da consciência de que na poesia reside o ponto de cisma, como afirma Agamben. O som e o sentido, a unidade semântica e a unidade sonora: no meio, esse corpo que compreende, de forma atenta, a matéria. Na narrativa de Hansen está posta uma vontade subjetiva de mudança que se faz possível no primitivo. A poeta subverte a ideia do bárbaro como exilado, pois o indomável ali não é sinônimo de estrangeiro, é, antes de qualquer coisa, o sujeito em estado de crueza que convive, ávido, com a totalidade do mundo. O eu lírico dos poemas não está no desterro, ele está no ponto zero de sua ação, consciente do lugar agreste que ocupamos todos nós.

Foi-se o tempo
em que confundi ação
com a fúria do movimento.
Arrancava lascas dos pratos
quando os punha a secar sem jeito
com o que é celestial.

A calma
ou o agora que tudo concede
lento, tão lento
tudo cresce e permite
sentir a espessura da língua
como pedra de sal entre os dentes.

Ao juntar lascas de pratos e o adjetivo celestial num mesmo espaço-poético, Hansen iguala peças tradicionais da roda-vida. O sagrado no mesmo plano da vida cotidiana, duas instâncias, absolutas em si mesmas, dialogando de modo direto, horizontal. Na sequência “tudo cresce e permite/ sentir a espessura da língua/ como pedra de sal entre os dentes”, o alargamento de tudo não nos direciona para o infinito, não se trata de noções desmedidas. Quando se dilata, torna-se viável para os nossos sentidos alcançarem impressões concretas, e, acima de tudo, corpóreas. Língua, sal, dentes. A regra do jogo na poesia de Hansen é compreender a substância de maneira imperativa; em seus versos, não há intervalos entre o que se sente o que se é, ou melhor, entre o sensível e as partes que o formam. A ponte de Válery é erguida e atravessada com habilidade pela escrita da poeta paulista, porém, a leveza de Seiva Veneno ou Fruto não consiste em condição rarefeita, inconsistente. O corpo (a palavra) pesa como o diabo, e só consegue correr porque, a partir do instante em que se entende do que se é feito, a velocidade empreendida pelo discurso é próxima a de um foguete em decolagem — e como é bonito acompanhar essa partida nos poemas de Hansen.

2.

Contato insolente com a terra: tal característica temática principal em Seiva Veneno ou Fruto estabelece uma palpável comunicação com a literatura devir-selvagem de Raduan Nassar. Disserta o narrador de Lavoura arcaica:  ” (…) por isso eu pensava muitas vezes que o meu caminho não era de eu pensar, e que não devia ser esse o meu vezo na correnteza, eu devia, isto sim, eu devia quando muito era apoiar a nunca num travesseiro de espumas, deitar o dorso numa esteira de folhas, fechar os olhos, e, largado na corrente, minhas mãos ativas que se deixassem roçar em abandono por colônias de algas (…)”. Assim também soa a voz narrativa de Hansen, um alguém cuja construção da linguagem prefere a robustez das palavras à vagueza das ideias; o dorso estendido no solo como início, meio e fim de uma poética.

Para Nassar, o corpo (a terra-pessoa) é também de tamanha importância; sem essa unidade mediadora entre natureza e sujeito, a palavra não existe. Só há escrita porque Ana está descalça. Porque seu pé toca a terra e deixa-se dominar por ela. Numa espécie de mini-posfácio do livro, Hansen cita Davi Kopenawa: “São muito antigas as palavras, se renovam o tempo todo”. E como renová-las? A resposta tanto da poeta quanto do escritor paulista está na busca por uma estética vigilante ao pó, aos resíduos. Ambos demonstram conhecimento da dificuldade de uma exatidão de linguagem, e sabem que o gesto preciso pode surgir diante do mínimo que incomoda. A palavra inquestionável imita um cisco no olho ou o fiapo de madeira no dedo da mão esquerda de um canhoto — (nada inquieta mais o mundo do que apoderar-se, simultaneamente, da linguagem e da carne).


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