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Nascida em Lisboa, a jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho está em trânsito contínuo. No início de seu novo livro, Vai, Brasil, lançado pela editora Tinta da China, a portuguesa narra: Agora escrevo à mão por cima do Atlântico. No ecrã do avião, uma personagem diz: “É incrível  como a minha vida cabe num armazém de dez metros”. A minha também, e penso que essa é uma sensação igual à que temos num avião: nada nos impede de cair e não ser a própria força do movimento.  Na lista de publicações, dois romances — o terceiro, Deus Dará, será publicado em 2016 — e cinco livros de reportagens-crônica-viagem. Ao longo de sua carreira como repórter, Alexandra cobriu zonas de conflito no Oriente Médio e na Ásia Central. Esteve em Jerusalém e no México, até estabelecer-se no Rio de Janeiro entre 2010 e 2014, como correspondente do jornal Público. Nesta entrevista, realizada num início de tarde em Paraty (a jornalista é uma das convidadas desta edição da FLIP), Alexandra fala sobre seu relacionamento com a comunicação e a literatura, comenta os paralelos entre a imprensa em Portugal e no Brasil, ressalta a importância do jornalismo para a democracia e, acerca da construção do texto, afirma: “O lugar é transportado para o texto através da linguagem. É importante que o discurso tenha uma dimensão de falta e descoberta por parte do leitor porque, dessa forma, o texto estará transportando o lugar inteiro com todos os seus mistérios.”

1. Como você compreende o relacionamento entre jornalismo e literatura?

Para mim tem uma fronteira clara entre jornalismo e literatura. Eu já vou dizer qual é, mas só preambulo antes: isso não quer dizer que o jornalismo não possa fazer uso de recursos da literatura. Até gosto mais da expressão jornalismo narrativo do que jornalismo literário porque significa um jornalismo que pode buscar cursar o cinema, a música, a literatura, ou seja, ir buscar artes, recursos narrativos. Mas isso não significa que o jornalismo não tenha que continuar a obedecer um conjunto de regras, a um cânone de regras e essa é a diferença básica que existe entre os dois. O jornalismo é um território que não é livre, ele responde perante à normas e estruturas que estão estabelecidas: fontes, leitores, editores). Por mais que, depois, o jornalista tenha uma liberdade formal, de tentar encontrar formas de contar histórias e daí surgem os recursos. Então, para mim essa é a fronteira, o jornalismo não é uma arte, não é criação porque jornalismo não é inteiramente livre. E acredito que a criação é completamente livre, não responde à nada, nem aos leitores, editores, o criador deve possuir liberdade completa. Ele tem que buscar o que vão ser os alicerces e as regras do seu próprio trabalho, inventar essas regras, inventar o território onde isso vai acontecer idealmente.

2. Queria que você falasse sobre  a sua experiência com o jornalismo e essa ideia  de tornar-se “estrangeira”, diante de determinada população, durante suas coberturas. 

A coisa é assim: Sou jornalista porque eu tenho curiosidade; queria sair para o mundo e escrever. Esse mecanismo da curiosidade, que é o que põe você em movimento, ele é um mecanismo necessariamente de interação com o mundo e disponibilidade para o que estar em sua volta e para você seguir em frente. Eu te ponho em deslocamento e tu vai. E vai atuando em ti também, vai te mudando. Era uma vontade que eu tinha de ver o que é que tinha no mundo. Mas isso vale tanto para lugares que são perto da minha cidade, meu próprio bairro, cidades distantes, Oriente, Ocidente, o que seja. Eu acho que a viagem é muito esse dispositivo em que você sai do longe para o próximo e é isso que te permite quebrar o clichê, o lugar comum. Porque você se aproxima e enxerga as nuances. Você deixa de ver as coisas, pessoas como uma massa uniforme e começa a observar uma a uma. Viajar é bem essa possibilidade de chegar ao perto e estar em contato com as diferenças. Sair do geral e enxergar o outro no olho. É uma experiência que na verdade configura como troca. Para mim não tem isso de ser estrangeira. Tento chegar num ponto em que eu seja uma pessoa diante de outra pessoa. Ali, nós vamos nos mudar de forma mútua; eu vou sair daquele momento outra pessoa e ela também. Acredito que a viagem e, depois, o texto — essa outra forma de viajar na viagem e,entender o que ficou em nós —  nos transformam em alguém diferente. E tal mudança acontece no momento em que escrevemos sobre a deslocação.

3. Como você sente a influência do descolamento na linguagem empreendida em sua escrita?

Tem essa frase muito célebre do Fernando Pessoa que se tornou um clichê: “Minha pátria é a língua portuguesa”. Vamos dizer que a experiência de morar no Brasil é a transformação dessa frase em “minha pátria são muitas línguas portuguesas”. Eu falo um português de quem morou durante anos no Brasil e incorporou coisas, num processo amoroso que chamo de antropofágico; o outro passa a ser eu também. Isso implica na história dele. Claro que eu sei que não sou o outro. Eu não sou brasileira, mas, o fato de morar neste espaço cria uma rede amorosa de relações que me mudaram e, consequentemente, mudaram as pessoas com quem eu estive. Então, estamos todos implicados numa história que passa a ser nossa. É um processo de como é que você chega de fora e fica implicado num lugar. Isso é uma responsabilidade sua também. Eu não olho para o Brasil como o lugar do outro; essa história também é minha, eu vivi nela e ela me mudou. E isso aconteceu com a linguagem. Minha língua portuguesa neste hoje é mais ampla. Não tem porque você ter medo de perder qualquer coisa. Você só vai multiplicando as várias possibilidades e hipóteses. Isso é válido para a identidade também. Na Europa, existe uma discussão do nacionalismo, da identidade. Eu não tenho medo disso porque não estou pronta. Nós estamos em movimento, e isso é um sinal de vitalidade.  E, óbvio, a linguagem é permeável e atravessada por tudo isso. O lugar é transportado para o texto através da linguagem. É importante que o discurso tenha uma dimensão de falta e descoberta por parte do leitor porque, dessa forma, o texto estará transportando o lugar inteiro com todos os seus mistérios.

4. De que forma você enxerga a fragmentação do texto no jornalismo e na literatura? 

Eu acho que a poesia vai ser, talvez, a linguagem do futuro, por causa de sua natureza fragmentária. Durante as jornadas de junho, em 2013, nós pudemos observar essa produção energética de pequenos estilhaços nas redes sociais. Então, eu acho que tudo se encaminha sim, para essa ideia de pedaços do texto. Eu acho que a poesia vai absorver melhor esse conceito de curta duração e de pulsões, conceito esse que possui uma lógica até rítmica. É muito interessante pensar como o romance vai sobreviver a isso. O romance é, por essência, um gênero de longa duração. Como essa natureza estilhaçada vai estar inserida no gênero, no futuro? Eu acredito que vai acontecer uma reinvenção. Na verdade, isso já vem acontecendo desde o século 1920. O Ulisses, por exemplo, é um romance de milhões de explosões concentradas naquelas páginas.

5. Queria que você traçasse um paralelo entre imprensa & literatura brasileira — portuguesa. 

Entre a imprensa portuguesa e a brasileira, a coisa que mais me saltou forte, quando fui morar no Rio de Janeiro, foi a pequena presença do mundo nos jornais brasileiros, em comparação com a imprensa portuguesa e europeia. Isso para mim é a diferença mais importante. Há vários fatores para essa falta de predominância, um deles é a dimensão gigante do Brasil, que se volta bastante para dentro. Em relação à literatura, posso dizer: Eu não acredito que haja um grande leitor ou pessoas que se dediquem à escrita em Portugal que não tenham sido muito marcado pela literatura brasileira. Quando eu penso em literatura portuguesa eu penso mais em literatura em língua portuguesa, sabe? Porque para mim a experiência de ler Herberto Helder, Rui Belo é tão vital quando a experiência de ler Clarice Lispector e Guimarães Rosa, por exemplo. Eu vejo isso como um território que é um prodígio, pois,  podemos fazer essa troca, os textos se contaminam e se influenciam.

6. Como você analisa a crise que atinge a estrutura na qual está posto o jornalismo contemporâneo? 

O que me preocupa mais é o fato de que hoje é quase inviável enviar repórteres para fora de um país, para cobrir o que está a acontecer. Porque isso é caríssimo, os jornais deixaram de ter esse dinheiro, as redações estão cada vez com menos jornalistas. E qual a consequência disso? Nós vamos ter cada vez mais lugares do mundo às escuras, onde o horror e a violência estão acontecendo sem que a gente saiba. Então, nós teremos um mundo mais pobre, longe do diálogo e da democracia. Eu acredito que o jornalismo faz parte de uma tentativa de democracia, ele traz qualidade ao sistema democrático. O jornalismo pode aproximar os lugares da gente. O repórter é como um corpo entre determinado espaço e o leitor. Fico preocupada com o quanto não sabemos, hoje, sobre lugares em que milhões de pessoas estão sendo mortas, escravizadas e traficadas.


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