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Tradução: Priscilla Campos

No texto vila-matiano, o espaço é sempre aspecto primeiro, deixando para longe qualquer indício de tempo. Compreender a escrita do espanhol é traçar, ato contínuo, mapas invisíveis em meio aos labirintos que nos são propostos a cada nova publicação. Neste ensaio, Vila-Matas está (quase) por inteiro no posto de narrador, atento aos detalhes de dois viajantes que se confundem: Roland Barthes e Stendhal. O amor, a paisagem, e a escrita são as inquietações de ambos — Barthes, refere-se a Stendhal em seu derradeiro ensaio, escrito após uma viagem à Itália; Stendhal disserta, com paixão, sobre a cultura e geografia italiana em seus diários. Vila-Matas, mais uma vez, é o elo entre um escritor e outro, entre deslocamentos tão importantes para a literatura ocidental, entre a memória literária e o espaço. 

Não é preciso muito esforço para imaginar o começo da breve e verdadeira história sobre a última viagem e o último texto de Roland Barthes. É uma história que, embora pareça de mentira, conta a verdade sobre Barthes, a escrita e o amor. E conta sem esquecer que, como disse Juan José Saer, a verdade não é, necessariamente, o contrário da ficção.

Barthes faz uma breve viagem à Itália, será a última de sua vida, mas ele ainda não sabe. À noite, na estação de Milão, o tempo está frio, brumoso, pegajoso. Um trem está a ponto de partir. Sobre cada vagão há um letreiro amarelo com as palavras Milão — Lecce. Barthes, que acaba de chegar de Paris tem, então, um devaneio: tomar esse trem, viajar durante toda a noite e, na manhã seguinte, encontrar-se na luz, na doçura, na calma de uma cidade extrema.

A descrição desse devaneio é o mote de abertura para a sua breve reflexão sobre o amor, Stendhal e a escrita — reflexão que se converteria em um texto truncado, o último de sua vida, ainda que, naturalmente, ele não saiba naquele instante. O que se sabe ao sentir-se atraído pelo trem noturno em Milão é que se faz de suma importância parodiar Stendhal, também viajante pela Itália, e exclamar ali, junto à via que leva ao sul: “Assim verei a bela Itália! Quão louco ainda estou em minha idade!”.  Em que consiste essa loucura? Pois, simplesmente — ainda que isto, Stendhal, como qualquer outra pessoa arrebatada, não poderia saber — em algo que no primeiro momento não é fácil de decifrar, talvez, porque é uma realidade crua: a linda Itália, assim como a pessoa amada, está sempre mais longe, do outro lado. Embora Stendhal nunca soubesse, na realidade a sua Itália foi sempre uma imagem fantasmagórica que irrompeu em sua vida com a mesma força que irrompe o amor que, como se sabe, realiza sua entrada no teatro do mundo através de seus famosos coups de foudre. Stendhal deixa-se seduzir tanto pela Itália, que gosta de tudo nesse país; até pelas costelinhas empanadas da cozinha italiana ele fica encantado.

E, sabemos: na pessoa amada, gostamos de tudo. O próprio Stendhal, enxergando-se tão fanático pela Itália, adverte qual a classe de movimento da alma que o une a esse país, e assinala também a raridade contida nesse sentimento. “É como o amor, porém, não estou apaixonado por ninguém, que extraordinário”. Estupor. Em seus diários, dedica-se a dizer, o tempo todo, o quanto ama a Itália, mas não comunica esse sentimento; não sabe explica-lo, suas palavras são como rabiscos que dizem o amor, mas também a impotência de dizer e racionalizar, “talvez — disse Barthes, em seu último texto — porque esse amor está sufocado em sua própria vivacidade”, talvez porque a paixão de Stendhal habita um espaço ainda privado da linguagem adulta, onde quem se move não consegue dar formas próprias à imaginação ou à criação. “Se nos limitarmos a estes diários de Stendhal, os quais relatam o amor pela Itália mas não o comunicam, poderíamos repetir melancolicamente (ou tragicamente) que nunca se consegue falar do que se ama”, escreve Barthes.

Mas foi apenas nos seus diários que Stendhal falhou em comunicar bem o seu amor pela Itália. Porque, vinte anos mais tarde, por uma sorte de efeito tardio — que também pertence à lógica retorcida do amor –, Stendhal escreve páginas triunfantes sobre a Itália, as quais conseguem, desta vez, transmitir aos leitores uma incessante paixão por esse país amado. Essas páginas são as que estão no começo de A cartuxa de Parma, por exemploO que aconteceu para ter ocorrido esta transformação? Temos, claro, um escritor mais experiente. Mas, acima de tudo, o que aconteceu foi a distância, percorrida por Stendhal, entre o diário de viagem e A cartuxa de Parma. E essa distância é a escrita.

Barthes chega a este desfecho enquanto, na estação de Milão, sobe a gola de seu sobretudo. O tempo está frio, brumoso, pegajoso. Chegou a hora de partir para a luz, a ternura, a calma dessa cidade extrema que, às vezes, chamamos de Morte. Barthes está terminando de escrever o seu último texto, um texto sem remate, que permanecerá truncado, mesmo que, hoje, eu o veja como o texto truncado mais perfeito que já li. Pois, é como se, involuntariamente, o francês estivesse nos assinalando que, se não conseguimos falar sobre o que amamos, já não é necessário acrescentar mais nada. Um trem segue para Lecce, mas Barthes não o pegará, vai ficar em Milão, enamorado. Vinte anos de escrita o contemplam. “O que é a escrita? Um poder, provável fruto de um extenso começo que vence a letargia estéril da imaginação fascinada e dá, a sua aventura, uma generalidade simbólica”.

Stendhal afirma que, quando jovem, ficava aborrecido ao mentir. Em seu diário, no qual nos importuna com seu amor chato, e quase indefinível pela Itália, ele nos diz a tal verdade tediosa. Stendhal ainda não sabia, naquele período, que existe a mentira ou ficção novelesca que seria, por sua vez — curioso salto, explicado somente pela potência da escrita — desvio da verdade e, por fim, expressão exata para a sua paixão pelas terras italianas. Uma diferença essencial entre a escrita e a verdade, ainda que, não se perca de vista o que foi dito antes: a verdade não é, necessariamente, o contrário da ficção.


 


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