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Mesa: De micróbios e soldados, Diego Vecchio e Saša Stanišić//

1. Ao entendermos a imaginação como aspecto comum entre doença e literatura, reconhecemos a pestilência do processo de escrita; sua propensão a qualquer contágio. Micróbios, do escritor argentino Diego Vecchio, traz essa ideia já em sua epígrafe, assinada por Samuel Auguste Tissot: “Além de doenças nervosas, as letras produzem uma infinitude de outros males”. A hipocondria é a temática condutora dos contos do livro, lançado no Brasil, recentemente, pela Cosac Naify. Na mesa, apresentada na tarde dessa quinta-feira, Vecchio afirmou que os hipocondríacos são, na verdade, pessoas atentas aos detalhes do corpo. A imagem da literatura como organismo vivo, sujeito a mudanças às vezes de difícil compreensão; e a figura do escritor como alguém vigilante àquela estrutura que lhe pertence, formam algo parecido com uma biologia da escrita. Esse não parece ser o ponto central na obra do argentino, porém, ao falar sobre costelas e diafragma destravado, Vecchio nos conduz a um tipo de naturalismo elegante; a um espécie de acompanhamento do ciclo da vida que se confunde com a linguagem literária de maneira tão simples quanto um espirro num dia de chuva.

2. Em Antes da festa, Saša Stanišić escreve: “A natureza conquista de volta o que lhe pertence. É o que se diria em outros lugares. Mas aqui nós não dizemos. Porque é absurdo. A natureza é inconsequente. Não se pode confiar na natureza”. Observamos, então, um forte contraponto à ideia da alusão hipocondríaca (e sua estranha retroalimentação criativa): a morte. O escritor, nascido na Bósnia, foi uma ótima surpresa nesta edição da FLIP. Ainda em sua adolescência, Saša fugiu da Alemanha por conta dos conflitos armados. “Amor e guerra são dois grandes tópicos que nos deixam com questões sem respostas”, refletiu Saša durante a conversa. Assim como a guerra, a literatura possui, ao mesmo tempo, o mundo e o disparo de alguém. Civis, soldados e escritores procuram aceitar, com resiliência, que estão condenados a qualquer tipo de andança fatal (e isso só é possível, talvez, após um percurso assustador). Mas Saša parece empreendê-lo com a calma de quem sobreviveu ao último estampido da bomba, ao último minuto do corpo, a uma contínua maldição coletiva. Afinal, conseguir sobreviver faz parte da ordem da fantasia pois, na ficção estão os três tempos (passado, presente, futuro) e a oportunidade de reprogramá-los é infinita.

 


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