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*Eu julgava que aquilo era/ um Luna Parque/ saía-se como se entrava/ e não acontecia nada irreversível durante/ é o que é um Luna Parque/ quando se é adolescente/ mas não/ quando dei por mim/ já lá estava dentro/ e não me lembrava/ de ter entrado/ quando disse agora quero-me/ ir embora/ riram-se ah minha rica/ deste Luna Parque não se sai/ quem cá vem não volta/ não se volta atrás. (Luna Parque, Adília Lopes) 

*I see again those myriad mornings rise/ when every living thing/ cast its shadow in eternity/ and all day long the light/ like early morning/ with its sharp shadows shadowing/ a paradise/ that I had hardly dreamed of. (A Coney Island of the Mind, Lawrence Ferlinghetti)

*abre uma cerveja e, tarde da noite/ para os moldes de quem está acostumado /com o horário do sono campestre, deixa o rádio ligado/ enquanto, reclinando-se na poltrona, fica ouvindo o Lionel Richie/ que está tocando em Love songs are back again. (Love Songs are back again, Alberto Pucheu)

Entre os fragmentos acima, e a chegada do Luna Parque Edições — selo independente voltado para a publicação de poesia –, existem três tipos de imagem. A primeira, é a de um bailinho sem fim. Algo como este clipe do Bombay Bicycle Club: eu danço porque é a única coisa que restou; lights out, words gone. A segunda, seria uma fotografia de qualquer cidade grande na madrugada profunda. De preferência, imagem capturada do alto, com amplo alcance do conjunto de luzes que insistem em permanecer, na paisagem, mesmo quando todo mundo sumiu.

A terceira, e última, é a mais óbvia aqui: uma montanha russa com seus carrinhos em movimento, Coney Island baby; man, I swear, I’d give the whole thing up for you. A estrutura de ferro parece ser o símbolo definitivo da ideia de resistência; porém, atenção: uma resistência que nada tem de inerte. Afinal, mover-se é também paixão daqueles que sobrevivem às tempestades, à maresia e aos raios solares de uma manhã de sol forte. 

No contraponto do objeto que se descola e, ao mesmo tempo, persiste (como diz Adília: deste Luna Parque não se sai/ quem cá vem não volta), estão as publicações do Luna Parque. Criado pelos autores Marília Garcia e Leonardo Gandolfi, o selo inicia sua produção com três livros e uma revista, intitulada Grampo Canoa. Nesta entrevista, a dupla conta detalhes sobre os primeiros lançamentos, fala de como foi pensada a criação do selo e comenta o cenário contemporâneo da poesia brasileira.

1. Como e quando surgiu a ideia de iniciar o Luna Parque Edições?

Gostamos muito de literatura, trabalhamos com isso, traduzindo ou dando aula ou escrevendo, e temos muitos amigos que fazem o mesmo. É algo do nosso cotidiano, faz parte da nossa convivência. Então, foi quase um próximo passo querer editar, porque sempre aparecia uma ideia de fazer isso e aquilo, traduzir aquele texto, encomendar aquele outro, sem contar as ideias que os amigos também davam. A criação do selo tem a ver com isso. Agora parte dessas ideias estão deixando de ser ideias e se transformaram na revista e nos livros em dupla. Foi no final do ano passado que começamos a encomendar os textos e pensar mais concretamente no selo.

2. Queria que você comentasse um pouco sobre cada um dos livros que serão lançados agora em outubro e essa ideia da escrita em dupla; além de citar, também, a Grampo Canoa.

A princípio, a Grampo Canoa seria uma revista semestral, porém já estamos com o número 2 avançado e começamos a pensar em diminuir essa periodicidade. Neste primeiro número, a revista abre com uma entrevista com a tradutora Inês Oseki-Dépré, traz poemas de Francesca Angiolillo, Sérgio Medeiros e Jaime Gil de Biedma, traduções de David Antin, Chris Marker, além de textos críticos de Bruno Brum (sobre um ready-madefeito por Drummond em seu primeiro livro); e de Danilo Bueno, sobre o livro Nominata Morfina de Fabiano Calixto.

A ideia dos livros em dupla veio da vontade de trabalhar junto, em vários sentidos: desde a encomenda de um livro aos autores até a possibilidade de um autor escrever a partir de outro texto, chamando atenção para um procedimento que já é corrente na escrita. Então, escolhemos duplas que poderiam criar esse diálogo. A ideia era fazer um livro com 10 poemas de cada um, formando um conjunto de mais ou menos 20 textos.

Os primeiros livros em dupla são: Vinhetas, de Alice Sant’anna e Zuca Sardan, Designação provisória, de Victor Heringer e Alberto Pucheu eVinte e cinco poemas, de Francisco Alvim e Mariano Marovatto. Nos três casos, houve uma interação, ou seja, um autor escreveu a partir do texto do outro. Postamos um texto no facebook do selo comentando um pouco de onde veio a ideia da dupla. Segue um trecho que complementa a resposta:

De repente, estávamos animados com livros de duplas: Dia sim dia não, do Chico Alvim e Eudoro Augusto, Segunda classe do Cacaso e Luís Olavo Fontes, e vários outros. Eles costumavam ser curtos e, em muitos casos, com um projeto especial feito pelos próprios autores ou por amigos, trabalho artesanal, às vezes até mambembe. Por essas e outras, é que neles a produção e o texto acabam se tornando uma coisa só, o que faz toda a diferença. A edição afetando a escrita, a escrita afetando a edição. De alguma forma, isso também acontece hoje na internet: edição, distribuição e produção se tornam indissociáveis.

Quanto aos livros em dupla, nos fim dos anos 90, a 7letras também preparou alguns em edição nada mambembe, mas mantendo uma sintonia ‘artesanal’ entre texto, arte e diagramação. Móbiles – de Age de Carvalho e Augusto Massi com arte de Alberto Martins – é um deles. E mais recente, um exemplo português: a bela edição da &etc de Walkmen, de José Miguel Silva e Manuel de Freitas. Isso para não falar de alguns livros de Jacques Roubaud, Emmanuel Hocquard ou de Georges Perec. Há muita gente.

3. Venho acompanhando & observando um tipo de foco mais atento à poesia contemporânea brasileira. Novos selos, espaços de debates e sites voltados para veiculação de produções – como o seu Le pay n’est pas la carte, o Modo de Usar & Co. De que maneira você enxerga esse cenário nos últimos anos?

Certa literatura tem um público específico e hoje há muitos lugares onde isso pode aparecer. A grande imprensa, tentando se adaptar aos novos tempos, está se homogeneizando cada vez mais, então poesia só aparece nela como relâmpago e espetáculo, da mesma maneira que funciona com a música e o teatro: todos só podem ser abordados como astros de TV ou coisa do tipo. Em contrapartida a essa homogeneização vão surgindo outros lugares com outra força discursiva e com alcance distinto, mas que tem mais a ver com especificidades e diferenças. Por exemplo, as diferentes formas de veiculação e de produção criadas pela internet, além da facilidade de se fazer livros hoje em dia, o quepossibilita o surgimento de novos selos e outras maneiras de editar.

4. Apesar dessa conjuntura que cito na perguntaanterior, a poesia ainda ocupa um lugar periférico em algumas discussões literárias. Nos jornais e suplementos literários, por exemplo, continua grande a discrepância entre resenhas sobre romances/biografias, etc & a produção poética, acredito. Como você analisa esselugarda poesia, aqui no Brasil?

Acho que a poesia sempre esteve nesse lugar. Tem um texto do poeta e matemático Hans Magnus Enzensberger que diz que o número de leitores de poesia é sempre igual em todas as épocas e países. Ele criou uma constante para isso, a constante Enzensberger que equivaleria a 1354 pessoas. Então, seja nos EUA ou na Islândia, com número de habitantes tão diversos, a constante seria a mesma. O texto dele é bem irônico e está falando sobre o fato de haver mais poetas que leitores de poesia. Por outro lado, como você apontou na pergunta anterior, acho que sempre surgem esses outros espaços, selos onde se pode inventar os leitores.

 

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trecho de ombros caídos, de Alice Sant’Anna — o poema faz parte do livro Vinhetas 

não entramos porque a água
estava muito gelada
descemos as pedras
e ele reconhecia de longe os surfistas
mesmo que de costas
o corpo quase todo afundando n’água
só pelo modo como remam

uma água viva na areia
uma água viva na palma da mão
não tem perigo uma água
que não está mais viva
esse tempo todo em silêncio sem querer
abrir a janela

 

Serviço

Lançamentos do Luna Parque Edições

São Paulo//

Quando: Terça-feira, 6 de outubro, às 19h Onde: Blooks Livraria (no Shopping Frei Caneca: R. Frei Caneca, 569/3o piso) *Às 20h haverá leituras com Alice Sant’Anna, Victor Heringer, Mariano Marovatto, Francesca Angiolillo

Rio de Janeiro//

Quando: Terça-feira, 13 de outubro, às 19h Onde: Espaço Olho da rua (Rua Bambina, 6 Botafogo) *Às 20h, haverá leituras com Alice Sant’Anna, Alberto Pucheu, Mariano Marovatto + convidados.

Vendas//

R$ 20; pedidos pelo e-mail: lunaparqueedicoes@gmail.com (em Salvador, os livros podem ser encontrados na Boto-cor-de-rosa; em breve outros locais estarão na lista)


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