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MesaAs margens de Mário; com: Beatriz Sarlo, Eliane Robert Moraes e Eduardo Jardim//

Existem dois pontos sobre a mesa de abertura da décima terceira edição da FLIP que se completam. Juntos, resultam nos primeiros traçados de um mapa extenso que nos guia ao escritor Mário de Andrade. Antes de apresentá-los, gostaria de deixar sublinhada a minha felicidade em estar in loco nessa primeira noite. Mais do que um encontro, conversa, celebração, homenagem, o público esteve diante da literatura em seu melhor (coisa que nem sempre acontece por aqui). A literatura como tentativa de compreensão, de apreensão do outro (autor e leitor): essa foi a premissa das análises apresentadas por Beatriz Sarlo, Eliane Robert Moraes e Eduardo Jardim (autor da biografia de Mário).

No último parágrafo de Da lira abdominal, ensaio que abre a Antologia erótica da poesia brasileira, um dos lançamentos desta FLIP, Eliane Robert Moraes escreve que não deveria haver limites para o erotismo literário. “Afinal, um domínio poético que se caracteriza pela incessante multiplicidade das imagens, não teria mesmo de ceder ao afã do esgotamento.” Tal ideia de diversidade estética/imagética, encaixa-se de maneira precisa na representação de Mário. O outro ponto, tem origem na expressão utilizada por Jardim durante a sua fala: figura poliédrica. Nesse início de maratona, está evidente a espécie de estátua com tentáculos dançantes que era Mário de Andrade. Como destacou Sarlo, o escritor esteve preocupado com a arte, realizou investigações musicais, dedicou-se à geografia explorativa em viagens e ao que a argentina chamou de “celebração do ritual”. Os paralelos entre Andrade e Borges construídos pela ensaísta foram engrandecedores. Segundo Sarlo, ambos entendem a importância do lugar geográfico literário, apesar de trazerem elementos diferentes sobre tal aspecto em suas obras.

Acredito que essas duas linhas, desenhadas em conjunto pelos três literatos, formam o primeiro e mais importante território do mapa andradiano: o discurso. Ele fica explícito durante a interlocução de Eliane: “Na literatura erótica de Mário, o calado é vencido pela artimanha da palavra”. No jogo do dito proibido, o escritor trabalha com o “sequestro” da palavra, substituindo a falta pelo excesso, como afirmou a doutora em filosofia. Interessante observar que, a partir de uma definição de Borges direcionada à escultura da Deusa Gálica, encontramos a miscelânea conflituosa e sacrossanta presente tanto no erotismo, como na literatura de Mário. O argentino grafa: “uma coisa rota e sagrada, que nossa ociosa imaginação pode enriquecer irresponsavelmente”. Enriquecemos desatinados, então. Porque discutir literatura é também uma forma de alimentar o nosso desvario.


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