topografias invisíveis — Marca d’água, Joseph Brodsky

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Em março2016, o Fuga para oeste completou um ano de expedições e chegadas. Com o intuito de sublinhar este período de translação, convidei quatro escritores para o especial topografias invisíveis. Durante os últimos meses, acompanhamos uma troca de leituras entre Adelaide Ivánova, Marília Garcia, Priscilla Menezes e Victor Heringer. O trajeto teve como ponto zero a indicação, feita por eles, de qualquer livro – com tradução brasileira – nos quais os eixos temáticos estão voltados para o deslocamento (geografia, paisagem, mapas). A obra escolhida foi enviada, pelos correios, junto com breve comentário – relacionado à narrativa – do remetente. Depois de um intervalo de leitura, os escritores compartilham, no site, as suas impressões. A ideia consiste em observar, ao longo desse percurso, a expectativa, surpresas, contato com o desconhecido: sensações relativas ao processo de traçar topografias invisíveis, ação presente em todo tipo de viagem a qual nos propomos. A seguir, o…


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topografias invisíveis — Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, Maya Angelou

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Em março2016, o Fuga para oeste completou um ano de expedições e chegadas. Com o intuito de sublinhar este período de translação, convidei quatro escritores para o especial topografias invisíveis. Durante os últimos meses, acompanhamos uma troca de leituras entre Adelaide Ivánova, Marília Garcia, Priscilla Menezes e Victor Heringer. O trajeto teve como ponto zero a indicação, feita por eles, de qualquer livro – com tradução brasileira – nos quais os eixos temáticos estão voltados para o deslocamento (geografia, paisagem, mapas). A obra escolhida foi enviada, pelos correios, junto com breve comentário – relacionado à narrativa – do remetente. Depois de um intervalo de leitura, os escritores compartilham, no site, as suas impressões. A ideia consiste em observar, ao longo desse percurso, a expectativa, surpresas, contato com o desconhecido: sensações relativas ao processo de traçar topografias invisíveis, ação presente em todo tipo de viagem a qual nos propomos. A seguir, o…


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Sobre a terra que te domina — Seiva Veneno ou Fruto, de Júlia de Carvalho Hansen

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1. De acordo com Válery, em Poesia e pensamento abstrato, só compreendemos os outros e a nós mesmos "graças à velocidade de nossa passagem pelas palavras".  Entre a palavra e o pensamento, então, devemos imaginar uma ponte sob a qual o homem "passe sem pesar". Esse tipo de disparada é, talvez, o movimento mais precioso na poesia; deslocamento ligeiro que se faz possível através da linguagem como constante escolha-primeira do poema (lembro aqui, a fala de Mallarmé a Degas -- "poemas são escritos com palavras, não com ideias"). Entre as preposições dos poetas franceses, podemos situar Seiva Veneno ou Fruto, da poeta Júlia de Carvalho Hansen. O título é um dos últimos lançamentos da Chão da Feira, editora independente que vem desenvolvendo uma distribuição importante de poesia contemporânea portuguesa e brasileira. Hansen produz em sua escrita esse tipo de preocupação com a palavra-veloz num ambiente selvagem, no qual a terra…


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Nunca se consegue falar sobre o que se ama, Enrique Vila-Matas

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Tradução: Priscilla Campos No texto vila-matiano, o espaço é sempre aspecto primeiro, deixando para longe qualquer indício de tempo. Compreender a escrita do espanhol é traçar, ato contínuo, mapas invisíveis em meio aos labirintos que nos são propostos a cada nova publicação. Neste ensaio, Vila-Matas está (quase) por inteiro no posto de narrador, atento aos detalhes de dois viajantes que se confundem: Roland Barthes e Stendhal. O amor, a paisagem, e a escrita são as inquietações de ambos -- Barthes, refere-se a Stendhal em seu derradeiro ensaio, escrito após uma viagem à Itália; Stendhal disserta, com paixão, sobre a cultura e geografia italiana em seus diários. Vila-Matas, mais uma vez, é o elo entre um escritor e outro, entre deslocamentos tão importantes para a literatura ocidental, entre a memória literária e o espaço.  Não é preciso muito esforço para imaginar o começo da breve e verdadeira história sobre a última…


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Coney Island baby | Luna Parque Edições

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*Eu julgava que aquilo era/ um Luna Parque/ saía-se como se entrava/ e não acontecia nada irreversível durante/ é o que é um Luna Parque/ quando se é adolescente/ mas não/ quando dei por mim/ já lá estava dentro/ e não me lembrava/ de ter entrado/ quando disse agora quero-me/ ir embora/ riram-se ah minha rica/ deste Luna Parque não se sai/ quem cá vem não volta/ não se volta atrás. (Luna Parque, Adília Lopes)  *I see again those myriad mornings rise/ when every living thing/ cast its shadow in eternity/ and all day long the light/ like early morning/ with its sharp shadows shadowing/ a paradise/ that I had hardly dreamed of. (A Coney Island of the Mind, Lawrence Ferlinghetti) *abre uma cerveja e, tarde da noite/ para os moldes de quem está acostumado /com o horário do sono campestre, deixa o rádio ligado/ enquanto, reclinando-se na poltrona, fica ouvindo o Lionel Richie/ que está tocando em Love songs are back again. (Love Songs are back again, Alberto Pucheu) Entre os fragmentos…


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Último trem numa manhã de inverno — Estação Atocha, de Ben Lerner

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Imagine isto que vou descrever a seguir: dois homens, sem cabeças, vestindo paletós surrados idênticos, caminham num campo aberto. Encontram-se, tentam apertar as mãos e não conseguem alcançar um ao outro. A segunda imagem que proponho, são ambos, parados, realizando, enfim, a saudação. No primeiro momento, a figura de um duplo procura comunicar-se: estou aqui porque eu quero te tocar; afinal, a condição de dúplice traz consigo esforços infinitos por qualquer tipo de proximidade. Ao entabular o gesto definitivo, surge a bela e extenuante perspectiva de habitar dois mundos. Em About Myself, o poeta sérvio, naturalizado norte-americano, Charles Simic, escreve: I'm the uncrowned king of insomniacs,/ Who still fights his ghosts with a sword,/A student of ceilings and closed doors,/Making bets two plus two is not always four./ (...) Descendant of village priests and blacksmiths:/ A grudging stage assistant of two/ Renowned and invisible master illusionists,/ One called God, the other Devil, assuming, of course,/…


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“O texto pode morar dentro de nós por muito tempo” #Flip2015

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Nascida em Lisboa, a jornalista e escritora Alexandra Lucas Coelho está em trânsito contínuo. No início de seu novo livro, Vai, Brasil, lançado pela editora Tinta da China, a portuguesa narra: Agora escrevo à mão por cima do Atlântico. No ecrã do avião, uma personagem diz: "É incrível  como a minha vida cabe num armazém de dez metros". A minha também, e penso que essa é uma sensação igual à que temos num avião: nada nos impede de cair e não ser a própria força do movimento.  Na lista de publicações, dois romances -- o terceiro, Deus Dará, será publicado em 2016 -- e cinco livros de reportagens-crônica-viagem. Ao longo de sua carreira como repórter, Alexandra cobriu zonas de conflito no Oriente Médio e na Ásia Central. Esteve em Jerusalém e no México, até estabelecer-se no Rio de Janeiro entre 2010 e 2014, como correspondente do jornal Público. Nesta entrevista, realizada…


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Duas notas sobre doença e guerra #Flip2015

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Mesa: De micróbios e soldados, Diego Vecchio e Saša Stanišić// 1. Ao entendermos a imaginação como aspecto comum entre doença e literatura, reconhecemos a pestilência do processo de escrita; sua propensão a qualquer contágio. Micróbios, do escritor argentino Diego Vecchio, traz essa ideia já em sua epígrafe, assinada por Samuel Auguste Tissot: "Além de doenças nervosas, as letras produzem uma infinitude de outros males". A hipocondria é a temática condutora dos contos do livro, lançado no Brasil, recentemente, pela Cosac Naify. Na mesa, apresentada na tarde dessa quinta-feira, Vecchio afirmou que os hipocondríacos são, na verdade, pessoas atentas aos detalhes do corpo. A imagem da literatura como organismo vivo, sujeito a mudanças às vezes de difícil compreensão; e a figura do escritor como alguém vigilante àquela estrutura que lhe pertence, formam algo parecido com uma biologia da escrita. Esse não parece ser o ponto central na obra do argentino, porém, ao…


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A artimanha da palavra #Flip2015

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Mesa: As margens de Mário; com: Beatriz Sarlo, Eliane Robert Moraes e Eduardo Jardim// Existem dois pontos sobre a mesa de abertura da décima terceira edição da FLIP que se completam. Juntos, resultam nos primeiros traçados de um mapa extenso que nos guia ao escritor Mário de Andrade. Antes de apresentá-los, gostaria de deixar sublinhada a minha felicidade em estar in loco nessa primeira noite. Mais do que um encontro, conversa, celebração, homenagem, o público esteve diante da literatura em seu melhor (coisa que nem sempre acontece por aqui). A literatura como tentativa de compreensão, de apreensão do outro (autor e leitor): essa foi a premissa das análises apresentadas por Beatriz Sarlo, Eliane Robert Moraes e Eduardo Jardim (autor da biografia de Mário). No último parágrafo de Da lira abdominal, ensaio que abre a Antologia erótica da poesia brasileira, um dos lançamentos desta FLIP, Eliane Robert Moraes escreve que não deveria haver…


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